sábado, 15 de outubro de 2011

o Rio Camaquam


Nota minha: Os mapas assim como os lugares que codificam, trazem imiscuídas  ao seu traçado, as vozes sussurradas. Ao insistirmos na leitura técnica dos traçados, tornam-se imprecisos como aparições. 
do autor do livro: Em Camaquam, enquanto media e analisava o solo junto ao rio, apareceu-me, surgido do lado do sol que se punha, um velho. Ele resmungava sobre um tesouro escondido que decerto eu estava a “perscrutar” ali aquelas horas. Trazia um graveto, e com uma passada de lado do pé descalço, limpou a areia onde se pôs a rabiscar, ladainhando uma história. Falava de pote de ouro enterrado, heranças, ambição, mas, é mais por aqui, na curva, havia encontrado o irmão, no tempo da cheia fica mais difícil passar, antes que pudesse retirá-lo do esconderijo. Ao outro irmão restara, a alguns palmos, além da figueira do pátio .... por ali.
Mais preocupado em aproveitar o resto da luz do dia, sabendo que teria que retornar no lusco-fusco naquele campo meio desconhecido, me pus a registrar as constatações geológicas, guardando ainda, amostras do solo. Deixei o velho ao lado ainda em ladainha.
A fim de tentar uma boa foto com a AGFA , dei um passo para trás, e, calquei com o coturno sobre o mapa, meio sem graça, virei-me rápido para me desculpar, mas ele já tinha se ido.  Não pude localizar o rastro de seus passos, que andar leve para alguém tão velho!
Antes de ir, olhei uma vez mais o desenho borrado. Foi em vão, mesmo adivinhando onde as linhas borradas se encontravam com a realidade, não havia um risco que fizesse sentido.
A noite, ao repassar minha anotações e estudos, a figura do velho vindo contra a luz surgia vez em quando... apartei daquilo me concentrando nos dados recolhidos. Já deitado, ainda decidia se retornaria aquele sítio no dia seguinte, a chuva torrencial da madrugada decidiu por mim.


Rascunho de nota enviada ao editor:  As fotos com a nova máquina ao serem reveladas mostraram-se inúteis. Dentre elas estariam as fotos tiradas junto ao rio Camaquam e arredores, preciosos registros da formação hidrográfica da região, infelizmente trabalhei em vão. Assim que tive q valer- me somente de minhas anotações e amostras. “




filho: Recordo que nem era muito mandinho, devia ter uns 10 anos. Naquele dia,  juntei as fotos desprezadas para o livro ao qual ele vinha se dedicando com afinco. Resolvi por fogo em algumas, reparando nas chamas azuladas queimando o papel. Uma a uma, fui queimando, até que me deparei com aquela com a imagem de um velho apontando... Não sei porque, inventei ao pequeno Quinca que naquela foto aparecia um fantasma do rio e repetindo isto, às gargalhadas, sai pela casa com a foto na mão em perseguição ao pequeno.


JoaquimBem feito!  A mãe viu o que ele estava fazendo.  Arrancou-lhe a foto das mãos, deu uma olhada e imediatamente a guardou entre as linhas de sua caixa de costuras! Ficou sem a foto e levou uma reprimenda.


Filho: Mais tarde, enquanto bordavam, ouvi comentários sussurrados sobre fotos de espíritos, mensagens de mortos e mesas que se movem do nada. A vizinha falou em acender uma vela a hora das aves-marias, hora "deles" vagarem!


Celeste: Aquela foto sumiu da caixa de costura, nem sob ameaça de vara, o menino assumiu que a pegara. Comentei ainda chateada com meu marido, este deu de ombros às falas , Lembrou que decerto a foto fazia parte daquelas mal reveladas no laboratório, Mas que não se lembrava de ter fotografado o velho.
?: Eu a havia guardado.





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