Encontrei um livro na beira do Rio, um fóssil de um livro, amarelado, meio sujo e com sinais de manuseio. Estava sem notas, rabiscos ou assinatura. Fechado.
O livro passou a conversar e a fazer longas caminhadas comigo, olhando o rio. Contamos um ao outro como era a cidade de cada um, a mesma cidade mas irremediavelmente outra. Cada cidade como uma camada, vivendo da outra.
O livro e eu ficamos em contato, ruminando histórias e imagens, numa vertigem temporal.
Fui registrando minhas anotações sobre o livro nas páginas do próprio livro, me inscrevendo nele.
Tomo um café acompanhada e são longas horas de devaneio e de vigília buscando um traço que una tão distintos objetos e códigos postos ao acaso no mesmo lugar.
Um fóssil que podia ter sido confundido com lixo, com uma pedra decorativa, ou com um objeto de arte, ou melhor um fóssil que podia ser tudo isto e ainda, um portal que permite um trânsito entre eras, entre seres, entre mundos.
O livro encontrado, fóssil de um tempo, foi retornando a vida ganhando cor, pele, sangue, coração.
A mensagem trazida pelo tempo, como não associar à ideia da mensagem trazida em uma garrafa, carregada pela água? Aberta a rolha, lida a mensagem, inicia-se a busca, faço achados, deduções e especulações.
Busco o que mesmo?
Com este livro, ativada esta memória, penso que de certo modo encontrei algo perdido no tempo, um artefato pronto a se revelar e se encontrar comigo em um tempo dilatado.
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